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Israel: Do tomate cereja a um ecossistema impressionante

Produzir um ambiente de negócios e de inovação com a participação dos setores público e privado, universidades e que gere valor pelo conhecimento.

Parece utopia, mas essa foi a base do ecossistema de inovação israelense, que fez com que o país asiático se tornasse referência mundial em inovação.

Não foi apenas possível, como já está acontecendo.

E para explicar como Israel atingiu esse patamar conversamos com o israelense Oren Gershtein, CEO da IdealityRoads, empresa especializada em estimular a criação de ambientes inovadores. 

Nos 15 anos antes de fundar a IdealityRoads, em 2013, Oren desenvolveu mais de 75 startups. Atuou como CEO de uma das principais incubadoras de tecnologia em Israel, a Van Leer Ventures, e ocupou cargos de liderança na Israeli Venture Capital. 

Ele também é membro ativo do conselho e presidente em vários empreendimentos em estágio inicial, em vários setores. 

Segundo ele, atualmente Israel tem mais startups, cientistas, investimentos de Venture Capital, engenheiros, patentes médicas, taxa de gasto em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e profissionais em tecnologia do que qualquer país do mundo, em termos per capita.

O país é, sem dúvida, um dos ecossistemas mais maduros do mundo.

E, pra se ter ideia dessa maturidade, alguns dados importantes:

  • 9 milhões de habitantes, o equivalente a 0,1% da população mundial
  • Território 10 vezes menor que o Paraná 
  • PIB de US$ 400 bilhões (4 vezes maior que o do Paraná)
  • 23 bilhões de dólares (exits da alta tecnologia israelense em 2017)
  • 1º no ranking da OCDE (despesas em P&D como porcentagem do PIB)
  • Mais de 360 centros de P&D em multinacionais
  • 1º no ranking global de Startups de Tecnologia per capita
  • Mais de 6,6 mil startups
  • Mais empresas listadas na Nasdaq do que qualquer outro país, salvo Estados Unidos e China
  • Possui ¼ da umidade do nordeste brasileiro 
  • O deserto cobre a maior parte do país, que recorreu a tecnologia para tornar a agricultura notável, principalmente com o cultivo de tomate cereja e dos laranjais

Oren Gershtein fundou a IdealityRoads com a filosofia de absorver todo esse potencial para construir capacidades de conhecimento e gestão em toda a academia, governo e indústria, criando parcerias público-privadas (PPPs) que promovem o crescimento econômico. 

Através desse trabalho, projetou e implementou o programa National Technology Incubator da Nova Zelândia, que já produziu dezenas de startups de alta tecnologia.

Ele também foi responsável por transformar a iniciativa CITES do Grupo Sancor Seguros, na Argentina, na primeira incubadora de tecnologia de estilo israelense da região. 

Oren participou no Brasil do Startup Nation, evento promovido pelo Sebrae/PR, em Curitiba, para debater as novidades do ecossistema de inovação no Paraná e que reuniu representantes de startups e empresas, além de agentes de inovação e representantes do poder público. 

Confira as revelações dele 😉

Como incentivar o poder público a investir em inovação?

Todo mundo sabe que um dos grandes diferenciais do país para o resto do mundo é o investimento do poder público em inovação. 

Para Oren, o financiamento público para as políticas de inovação é um desafio político. 

Os políticos geralmente preferem projetos simples de explicar que podem ter sua imagem ou nome associados a eles no jornal. Uma boa política de inovação nem sempre é simples de explicar e raramente garante fotos no jornal.

Ainda assim, para ele, o melhor motivador para fazer as sociedades de todo o mundo adotarem as políticas necessárias para desenvolver um ecossistema de inovação e de transição para uma economia do conhecimento é o motivador mais simples de todos: elas não têm escolha. 

Segundo Oren, o mundo está se movendo mais e mais em direção às economias baseadas no conhecimento, na inovação empreendedora e em P&D, e, de maneira muito similar à última revolução industrial, os países que não inovarem correm o risco de serem deixados para trás. 

“Nossa experiência tem sido de que sempre há alguns ‘campeões’ no setor público – políticos que entendem esse sentido de urgência e empurram para que haja atuação pública no desenvolvimento do ecossistema de inovação.” 

É responsabilidade dos outros players do ecossistema, de acordo com ele, aumentar a conscientização, apoiar e aplaudir esses campeões à medida que eles surjam e participar em iniciativas público-privadas, quando forem relevantes.

Como conectar empreendedorismo e academia no Brasil?

Oren revela que, percebendo ou não qualquer vantagem econômica que resulte disso, todo governo aplica enormes quantidades de investimento público em universidades. 

Em uma economia do conhecimento, estes investimentos em educação (escolas, universidades, etc) são potenciais matérias-primas para as habilidades, invenções e ideias que levam à criação de startups. 

No entanto, segundo ele, sem o mecanismo certo para criar a ponte entre as universidades e investidores/indústria que promova o espírito empreendedor, este investimento nunca é traduzido em ganho econômico para a sociedade como um todo. 

“Este processo de transferência de tecnologia, ou seja, pegar ideias e inovações criadas no laboratório e licenciar diretamente às companhias ou aos investidores para que surjam a partir disso startups baseadas em tecnologia – é uma das chaves da inovação israelense.”

As universidades e centros de pesquisa israelenses recebem um adicional de US$ 500 milhões por ano oriundos apenas da transferência de tecnologia, sem considerar os subsídios governamentais e mensalidades. 

Muitas das inovações de sucesso de Israel, incluindo a Mobileye, a descoberta do tomate cereja e o medicamento para esclerose múltipla Copaxone, tiveram sua origem na universidade e foram comercializados através da transferência de tecnologia. 

Mas para Oren, o Brasil não é o único país lutando para materializar o valor real de transferência de tecnologia. A academia e o setor privado são guiados por um conjunto diferente de valores, objetivos e culturas.

A política governamental pode fazer uma diferença significativa, mas a verdadeira chave para a transferência de tecnologia não está no mundo da política. Ela está no desenvolvimento de habilidades interpessoais e capacidades dentro da comunidade universitária, especialmente dentro dos escritórios de transferência de tecnologia (TTOs, na sigla em inglês) em universidades em todo o Brasil.

Como fomentar o empreendedorismo entre o público jovem? 

Promover o espírito empreendedor para a juventude é fundamental, segundo Oren.

Ele conta que, em Israel, é comum ver programas de empreendedorismo não só em faculdades e universidades, mas até mesmo em escolas de ensino médio. 

Uma ótima iniciativa em Israel é o Programa Jovens Empreendedores, a versão local da rede global “Junior Achievement”. 

Realizado em 87 pontos em Israel e envolvendo milhares de alunos por ano, este programa de ensino médio desafia os alunos a resolverem problemas do mundo real, e ainda fornece pequenos valores de capital para algumas das principais iniciativas, para criar a verdadeira experiência de empreendedorismo desde a juventude. 

Para o israelense, seja através de políticas, educação ou conexões globais, criar know-how e habilidades interpessoais está entre os elementos mais críticos – e mais difíceis de serem alcançados – da criação de ecossistemas. 

A resposta não está em um elemento apenas, mas em encontrar formas criativas de empregar todos esses elementos em harmonia, para criar uma massa crítica de conhecimento, habilidades e atividade que conduzam o ecossistema para frente.

O ecossistema deve ser um organismo autossuficiente? 

Oren destaca que nenhum ecossistema de inovação nunca foi ou será totalmente autossuficiente.

Embora o setor privado represente o mecanismo de crescimento de um ecossistema e seja o único responsável pelo gerenciamento das startups, dois princípios são verdadeiros:

  1. Nenhum ecossistema nunca foi criado totalmente sem assistência do governo.
  2. Nenhum ecossistema pode ser sustentado totalmente sem apoio do governo.

Segundo ele, o papel do governo é definir a estratégia e as regras básicas, alocar recursos e entregar o gerenciamento para o setor privado. 

Embora o ecossistema sempre vá precisar de inputs do governo, a inovação vibrante mais do que paga sua dívida para com a sociedade.

As receitas fiscais geradas a partir do exit da Mobileye em 2017, por exemplo, transformaram sozinhas o déficit orçamentário do governo nacional em um excedente orçamentário naquele ano.

Os 3 três ingredientes para desenvolver um ecossistema

Um ecossistema é o local de encontro de tantos elementos, mas de acordo com Oren, é importante se concentrar em três aspectos:

1. Fortalecimento de políticas públicas

A responsabilidade primária pela definição da estratégia para o ecossistema e pelo alinhamento de interesses está com o setor público.

Naturalmente, o governo nunca deve escolher os “vencedores”, o setor privado deve ser o único responsável pelo gerenciamento de startups.

No entanto, um ecossistema próspero exige uma política governamental atenciosa, que apoie a inovação em todo o ciclo de vida da startup – do IP (Intellectual Property) até o IPO (Initial Public Offering).

2. Foco nas habilidades interpessoais ou soft skills

Existe uma tendência das pessoas se impressionarem com histórias sobre investimentos e tecnologias, mas no final do dia, startups são sobre pessoas com habilidades criando empresas globais.

O conhecimento, a capacidade de gestão e as conexões estão no cerne de um ecossistema.

Ótimas políticas públicas e ótimas iniciativas privadas são aquelas que incorporam de maneira semelhante não só a tecnologia e os recursos financeiros, mas também um plano para desenvolver habilidades interpessoais de nível mundial dentro de um território.

3. Ligação da indústria com as universidades

Em um ecossistema em desenvolvimento, uma das melhores maneiras de construir startups com uma vantagens competitivas globalmente é basear a startup em uma tecnologia exclusiva. E as universidades são a melhor fonte para novas ideias e tecnologias na maioria das sociedades. 

Como Israel se tornou um polo de inovação mundial?

Israel conseguiu transformar a desvantagem de ser um país pequeno e uma economia pequena em uma vantagem estratégica para desenvolver seu ecossistema de inovação. 

Isto é especialmente verdadeiro em relação a dois aspectos, segundo Oren:

1. Políticas Público-Privadas (PPP) inovadoras

O governo de Israel foi capaz de tomar decisões dramáticas há 30 anos atrás, levando a PPPs em inovação agressivas que estão entre os motivos para o desenvolvimento de seu atual ecossistema.

Como Israel está mais para uma lancha do que para um navio de guerra em termos de tamanho, o país foi capaz de mudar de direção rapidamente e agir decisivamente nesta questão fundamental.

2. A estratégia de “ser global desde o início”

O mercado local de Israel, com 9 milhões de pessoas, é totalmente insuficiente para suportar o crescimento escalável e, por razões políticas, outros importantes mercados locais não estão acessíveis. 

Por isso, Oren destaca que startups israelenses desenvolveram uma estratégia de “ser global desde o início”.

Isso quer dizer, a partir do momento em que uma startup nasce, até mesmo como uma empresa de 1 ou 2 pessoas, ela busca alcançar mercados-chave globais na América do Norte, Europa, Ásia, etc. 

Essa estratégia afeta todos os aspectos de gestão da startup, de governança até a estratégia de IP (Intellectual Property – patentes), do desenvolvimento do produto com MVP e até o plano de marketing. 

No caso de Israel, Oren revela que essa estratégia foi desenvolvida por necessidade, mas ao longo do tempo ela se transformou em uma das maiores forças do ecossistema.

Oren concorda que nenhum destes fatores são inteiramente válidos na realidade do Brasil, mas as lições ainda podem ser aplicáveis.

Veja o que ele diz a respeito:

1. Políticas públicas: Em um país com dimensões continentais como o Brasil, o Governo Federal naturalmente perde agilidade, porém os estados e municípios podem ter os recursos e capacidades para agir rapidamente na concepção de políticas de inovação agressivas, cobrindo todo o ciclo de vida das startups.

2. “Ser global desde o início”: O mercado local do Brasil é grande o suficiente para suportar grandes startups, mas uma estratégia de desenvolvimento estritamente local ou regional pode ser uma armadilha, limitando o crescimento de longo prazo. Os investidores e mentores devem incentivar as startups brasileiras a terem um pensamento global, mesmo se por escolha e não por necessidade.

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Autor

Adoro escrever e dar pitaco sobre tudo, mas tenho carinho por assuntos que ajudam empreendedores, assim como eu, a serem melhores. Jornalista e cofundadora da Rulez.

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